quarta-feira, junho 11, 2008

Nascer

O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado. Era João, como o pai, e como aconselhavam a devoção e a pobreza. Enxoval e brinquedo de pobre, comprados com a antecedência que caracteriza não os previdentes, mas os sonhadores. E destino, para não dizer profissão, era o de pedreiro, curial ambição do pai, que, embora na casa dos 30, trabalhava ainda de servente.

Tudo isso o menino tinha, mas não havia nascido. Eles nascem antes, nascem no momento em que se anunciam, quando há realmente desejo de que venham ao mundo. O parto apenas dá forma a uma realidade que já funcionava. Para João mais velho, João mais moço era uma companhia tão patente quanto os colegas da obra, e muito mais ainda, pois quando se separavam ao toque da sineta, os colegas deixavam por assim dizer de existir; cada um se afundava na sua insignificância, ao passo que o menino ia escondido naquele trem do Realengo, e eram longas conversas entre João e João, e João miúdo adquiria ainda maior consistência ao chegarem em casa, quando a mãe, trazendo-o no ventre, contudo o esperava e recebia das mãos do pai, que de madrugada o levara para a obra.

Estas imaginações, ditas assim parecem sutis; não havia sutileza alguma em João e sua mulher: Nem o casal percebia bem que o garoto rodava entre os dois como um ser vivo; pensavam simplesmente nele, muito, e confiados, e de tanto ser pensado João existiu, sorriu, brincou na simplicidade de ambos. Como alguém que, na certeza de um grande negócio, vai pedindo emprestado e gastando tranqüilamente, João e a mulher sacavam alegrias futuras. João sentia-se forte, responsável. Escolhera o sexo e a profissão do filho; a mulher escolhera a Cor; um moreno claro, cabelo bem liso, olhos sinceros. Não havia nada de extraordinário no menino, era apenas a soma dos dois passada a limpo, com capricho.

Esperar tantos meses foi fácil. O menino já tomava muita parte na vida deles, nascer era mais uma formalidade. Chegou março, com um tempo feio à noite, que ameaçava carregar o barraco. A mulher de João acordou assustada, sentindo dores. Pela madrugada, correram à estação; a chuva passara, mas o trem de Campo Grande não chegava, e João sem poder mexer-se. As dores continuavam, João levou tempo para pegar uma carona de caminhão.

Na maternidade não havia médico nem enfermeira que o temporal tinha retido longe. João perdera o dia de serviço e esperou determinado. Afinal, levaram a mulher para uma sala onde cinco outras gemiam e faziam força. João não viu mais nada, ficou banzando no corredor. Entardecia, quando a porta se abriu e a enfermeira lhe disse que o parto fora complicado, mas agora tudo estava em ordem, a criança na incubadora. "Posso ver?" "Depois o senhor vê. Amanhã." Amanhã era dia de pagamento, não podia faltar à obra. Voltaria domingo. Mas no dia seguinte, à hora do almoço, telefonou uma complicação, não se ouvia nada, alguém da secretaria foi indagar! Respondeu que tudo ia bem, ficasse descansado.

Domingo pela manhã, João se preparava para sai; Quando a ambulância silvou à porta, e dela desceu, amparada, a mulher de João. "O menino?" "Diz que morreu na incubadora, João." "E era mesmo como a gente pensava moreninho, engraçado?" Ela baixou a cabeça. "Não sei João. Não vi. Eu estava passando mal, eles não me mostraram".
E o menino, que tinha sido tanto tempo, deixou de repente de ser.
(Carlos Drummond de Andrade, Seleto em Proso e Verso, Liv. José Olímpio, J 978, PP 65 o 66)

Estio

Com remorso ele olhava para quem estava a sua frente, e pensava! Não temos a mesma vida, mas a mesma importância para algumas pessoas; em sua mente perturbada pensava em violência, nos mais variados níveis, queria aniquilar qualquer um naquele dia, tudo seria possível; em sua cabeça rápidas imagens de atos violentos desfilavam; tudo visto por ele na TV, já se encontrava anestesiado e farto de ver sangue, estupros, enfim queria poder ter oportunidade de poder praticá-los, queria se sentir impressionado com sangue alheio entre seus dedos, e se engasgar, ao presenciar o medo expressado por quem morreria por suas mãos, o olhar, a dor, o desespero, de implorar a vida que não é a mesma, mas que tem sentido para muitos.
A situação não é de se colocar no lugar de ninguém, mas medir a distância entre estes dois extremos, o olhar de quem mata e o de quem morre e os de quem olham tudo pela TV, não há na morte sensibilidade que explique esta experiência de se ver morrer por outro que continuará a matar e determinar o seu fim com ou sem requintes de crueldade. A morte que arrasta seu sangue pelos jornais e bem diferente daquela que vem com a velhice e outras doenças congênitas ou adquiridas, ela tem o peso de uma faca expondo vísceras, mutilando um corpo, atravessando órgãos, cegando, queimando, afogando, quase impossível enumerar variações, ela não carrega em seu punho foices e nem veste preto, não chega a ser tão figurativa assim, mancha nossas vidas com perdas.

Mas, resolveu que neste dia viria a perdoar todos os transeuntes, não haveria vitimas fatal por conta de seus delírios queria agora dormir e se ver livre da idéia de morte, mas a morte é a cola da vida, não se dorme sem ela as espreitas, a cada hora de seu sono seu corpo desequilibrava em espasmos e alucinava em gritos, acordaria com o corpo marcado de hematomas e a face desfigurada pelo medo de seus sonhos, certamente começava a viver sua morte, a hecatombe de uma mente, o passamento de suas idéias, o fim de sua normalidade, começava ali a violência da loucura.
O delírio ao escutar qualquer som e associá-lo a gritos, as lembranças, a calma como toda esta loucura dimensiona seu mal e retalha o caráter decompõe a memória, exila pensamentos, o homem que ponderou não assassinar pessoas sofre sua metamorfose e desfigurado pela loucura assina papeis em branco, aniquila seu papel na sociedade, seu olhar agora se assemelha ao de quem morre ao ser flagrado em rua escura e lhe tem o brilho dos olhos apagados, em sua loucura todos os dias são escuros, a chuva penetra seu corpo, gesticula sozinho em seu hábito de dialogar com alguém, imagina que as ruas são os imensos corredores de sua casa e ali anda infinitamente perdido, não a quartos para abrigá-lo. Imagina-se sendo ofendido por todos e ao passarmos somos ofendidos por ele, também seremos alvos de sua fúria em algum momento, quando ele se imaginar agredido.

Mas esta perdido de amor por alguma mulher, que ele nunca irá tocar em sua infinita loucura, e quando a imagina fica resignado, silencia. Em seus surtos esbraveja com tudo a sua volta, a loucura se liberta nos surtos?(alguém pergunta!). O homem que imagina ser motorista de automóvel, e conduz seu corpo por entre veículos na cidade grande manobrando seu volante, os andarilhos que percorrem a cidade falando aos ventos, o apanhador de trecos, com suas sacolas cheias de objetos que para ele são úteis, existem aqueles que se confundem em meio às pessoas que ocupam os coletivos, estes silenciosos lançam seus olhares perdidos e vagam sem direção, seria somente solidão ou uma silenciosa loucura?

sexta-feira, junho 06, 2008

Lamúria

e que me dêem flores
e me lacem a vida
e despejem em mim
Sonatas de agouros
e que levem de mim
o que sempre foi teu.

que nada seja o sempre
e que desejar
seja mais forte
que meus dias com mau humor
de ti,de nós, deles
e de quem mais
vislumbrar
o acaso.

Penso que o avesso
de ti em estar
aqui é Tudo
por nada ver em mim solidão
E solitário
estarei somente
em intentos
e rompantes
surtos
ocaso.

Carlos Robson

Azevichado

E por voltar de um tempo
Sem precisão
E de paixões
onde os caminhos são todos
noturnos
passadiços de novos
corações
imaculados
elocubrar sobre o tempo é nada
que deixa nossa vida mareada
com nossas volúpias
com nossos intentos juvenis
em notória
pausa e silenciada
pelo ser
que agora cabuloso
não comemora com vícios
mas agride com o silêncio
peçonhento
de ser nada.

Carlos Robson

O enigma Vivian Maier.

Fonte :  https://revistazum.com.br/colunistas/o-enigma-vivian-maier/ É difícil saber o que leva alguém a optar por atravessar a vid...