quinta-feira, novembro 27, 2008

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto .

Paulo Leminsk

quarta-feira, junho 11, 2008

Nascer

O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado. Era João, como o pai, e como aconselhavam a devoção e a pobreza. Enxoval e brinquedo de pobre, comprados com a antecedência que caracteriza não os previdentes, mas os sonhadores. E destino, para não dizer profissão, era o de pedreiro, curial ambição do pai, que, embora na casa dos 30, trabalhava ainda de servente.

Tudo isso o menino tinha, mas não havia nascido. Eles nascem antes, nascem no momento em que se anunciam, quando há realmente desejo de que venham ao mundo. O parto apenas dá forma a uma realidade que já funcionava. Para João mais velho, João mais moço era uma companhia tão patente quanto os colegas da obra, e muito mais ainda, pois quando se separavam ao toque da sineta, os colegas deixavam por assim dizer de existir; cada um se afundava na sua insignificância, ao passo que o menino ia escondido naquele trem do Realengo, e eram longas conversas entre João e João, e João miúdo adquiria ainda maior consistência ao chegarem em casa, quando a mãe, trazendo-o no ventre, contudo o esperava e recebia das mãos do pai, que de madrugada o levara para a obra.

Estas imaginações, ditas assim parecem sutis; não havia sutileza alguma em João e sua mulher: Nem o casal percebia bem que o garoto rodava entre os dois como um ser vivo; pensavam simplesmente nele, muito, e confiados, e de tanto ser pensado João existiu, sorriu, brincou na simplicidade de ambos. Como alguém que, na certeza de um grande negócio, vai pedindo emprestado e gastando tranqüilamente, João e a mulher sacavam alegrias futuras. João sentia-se forte, responsável. Escolhera o sexo e a profissão do filho; a mulher escolhera a Cor; um moreno claro, cabelo bem liso, olhos sinceros. Não havia nada de extraordinário no menino, era apenas a soma dos dois passada a limpo, com capricho.

Esperar tantos meses foi fácil. O menino já tomava muita parte na vida deles, nascer era mais uma formalidade. Chegou março, com um tempo feio à noite, que ameaçava carregar o barraco. A mulher de João acordou assustada, sentindo dores. Pela madrugada, correram à estação; a chuva passara, mas o trem de Campo Grande não chegava, e João sem poder mexer-se. As dores continuavam, João levou tempo para pegar uma carona de caminhão.

Na maternidade não havia médico nem enfermeira que o temporal tinha retido longe. João perdera o dia de serviço e esperou determinado. Afinal, levaram a mulher para uma sala onde cinco outras gemiam e faziam força. João não viu mais nada, ficou banzando no corredor. Entardecia, quando a porta se abriu e a enfermeira lhe disse que o parto fora complicado, mas agora tudo estava em ordem, a criança na incubadora. "Posso ver?" "Depois o senhor vê. Amanhã." Amanhã era dia de pagamento, não podia faltar à obra. Voltaria domingo. Mas no dia seguinte, à hora do almoço, telefonou uma complicação, não se ouvia nada, alguém da secretaria foi indagar! Respondeu que tudo ia bem, ficasse descansado.

Domingo pela manhã, João se preparava para sai; Quando a ambulância silvou à porta, e dela desceu, amparada, a mulher de João. "O menino?" "Diz que morreu na incubadora, João." "E era mesmo como a gente pensava moreninho, engraçado?" Ela baixou a cabeça. "Não sei João. Não vi. Eu estava passando mal, eles não me mostraram".
E o menino, que tinha sido tanto tempo, deixou de repente de ser.
(Carlos Drummond de Andrade, Seleto em Proso e Verso, Liv. José Olímpio, J 978, PP 65 o 66)

Estio

Com remorso ele olhava para quem estava a sua frente, e pensava! Não temos a mesma vida, mas a mesma importância para algumas pessoas; em sua mente perturbada pensava em violência, nos mais variados níveis, queria aniquilar qualquer um naquele dia, tudo seria possível; em sua cabeça rápidas imagens de atos violentos desfilavam; tudo visto por ele na TV, já se encontrava anestesiado e farto de ver sangue, estupros, enfim queria poder ter oportunidade de poder praticá-los, queria se sentir impressionado com sangue alheio entre seus dedos, e se engasgar, ao presenciar o medo expressado por quem morreria por suas mãos, o olhar, a dor, o desespero, de implorar a vida que não é a mesma, mas que tem sentido para muitos.
A situação não é de se colocar no lugar de ninguém, mas medir a distância entre estes dois extremos, o olhar de quem mata e o de quem morre e os de quem olham tudo pela TV, não há na morte sensibilidade que explique esta experiência de se ver morrer por outro que continuará a matar e determinar o seu fim com ou sem requintes de crueldade. A morte que arrasta seu sangue pelos jornais e bem diferente daquela que vem com a velhice e outras doenças congênitas ou adquiridas, ela tem o peso de uma faca expondo vísceras, mutilando um corpo, atravessando órgãos, cegando, queimando, afogando, quase impossível enumerar variações, ela não carrega em seu punho foices e nem veste preto, não chega a ser tão figurativa assim, mancha nossas vidas com perdas.

Mas, resolveu que neste dia viria a perdoar todos os transeuntes, não haveria vitimas fatal por conta de seus delírios queria agora dormir e se ver livre da idéia de morte, mas a morte é a cola da vida, não se dorme sem ela as espreitas, a cada hora de seu sono seu corpo desequilibrava em espasmos e alucinava em gritos, acordaria com o corpo marcado de hematomas e a face desfigurada pelo medo de seus sonhos, certamente começava a viver sua morte, a hecatombe de uma mente, o passamento de suas idéias, o fim de sua normalidade, começava ali a violência da loucura.
O delírio ao escutar qualquer som e associá-lo a gritos, as lembranças, a calma como toda esta loucura dimensiona seu mal e retalha o caráter decompõe a memória, exila pensamentos, o homem que ponderou não assassinar pessoas sofre sua metamorfose e desfigurado pela loucura assina papeis em branco, aniquila seu papel na sociedade, seu olhar agora se assemelha ao de quem morre ao ser flagrado em rua escura e lhe tem o brilho dos olhos apagados, em sua loucura todos os dias são escuros, a chuva penetra seu corpo, gesticula sozinho em seu hábito de dialogar com alguém, imagina que as ruas são os imensos corredores de sua casa e ali anda infinitamente perdido, não a quartos para abrigá-lo. Imagina-se sendo ofendido por todos e ao passarmos somos ofendidos por ele, também seremos alvos de sua fúria em algum momento, quando ele se imaginar agredido.

Mas esta perdido de amor por alguma mulher, que ele nunca irá tocar em sua infinita loucura, e quando a imagina fica resignado, silencia. Em seus surtos esbraveja com tudo a sua volta, a loucura se liberta nos surtos?(alguém pergunta!). O homem que imagina ser motorista de automóvel, e conduz seu corpo por entre veículos na cidade grande manobrando seu volante, os andarilhos que percorrem a cidade falando aos ventos, o apanhador de trecos, com suas sacolas cheias de objetos que para ele são úteis, existem aqueles que se confundem em meio às pessoas que ocupam os coletivos, estes silenciosos lançam seus olhares perdidos e vagam sem direção, seria somente solidão ou uma silenciosa loucura?

sexta-feira, junho 06, 2008

Lamúria

e que me dêem flores
e me lacem a vida
e despejem em mim
Sonatas de agouros
e que levem de mim
o que sempre foi teu.

que nada seja o sempre
e que desejar
seja mais forte
que meus dias com mau humor
de ti,de nós, deles
e de quem mais
vislumbrar
o acaso.

Penso que o avesso
de ti em estar
aqui é Tudo
por nada ver em mim solidão
E solitário
estarei somente
em intentos
e rompantes
surtos
ocaso.

Carlos Robson

Azevichado

E por voltar de um tempo
Sem precisão
E de paixões
onde os caminhos são todos
noturnos
passadiços de novos
corações
imaculados
elocubrar sobre o tempo é nada
que deixa nossa vida mareada
com nossas volúpias
com nossos intentos juvenis
em notória
pausa e silenciada
pelo ser
que agora cabuloso
não comemora com vícios
mas agride com o silêncio
peçonhento
de ser nada.

Carlos Robson

terça-feira, maio 06, 2008

Cinema - Alguns Bons Filmes

Win Wenders

2000 - O hotel de um milhão de dólares (The Million Dollar Hotel)
1999 - Buena Vista Social Club (Buena Vista Social Club)
1987 - Asas do desejo (Der himmel über Berlin)
1994 - O céu de Lisboa (Lisbonne story)

Jim Jarmusch

2005 - Flores partidas (Broken flowers)
2003 - Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes)
1991 - Uma noite sobre a Terra (Night on Earth)
1999 - Ghost Dog (Ghost Dog: The way of the samurai)


David Lynch

2001 - Cidade dos sonhos (Mulholland Drive)
1990 - Twin Peaks (Twin Peaks) (TV)
1980 - O homem-elefante (Elephant man, The)

David Cronenberg

1983 - Na hora da zona morta (Dead zone, The)


Tim Burton

2003 - Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (Big fish)
1999 - A lenda do cavaleiro sem cabeça (Sleepy Hollow)
2007 - Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da rua Fleet

Robert Altman

2001 - Assassinato em Gosford Park (Gosford Park)
1970 - M*A*S*H* (M*A*S*H*)

Spike Lee

1999 - O verão de Sam (Summer of Sam)
2002 - A última noite (25th hour)
1992 - Malcolm X (Malcolm X)

Emir Kusturica

2001 - Memórias em Super 8 (Super 8 stories)
1995 - Underground - Mentiras de guerra (Underground)

Quintana

I

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mario Quintana - A Rua dos Cataventos

A mim basta a poesia

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas,
que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

quarta-feira, setembro 26, 2007




Biografia:

Interpol é a temida polícia internacional. Isso significa então que esta banda de Nova Iorque faz músicas sobre o programa de tolerância zero, terrorismo e coloca sirenes de carro em suas músicas? Não, não há nada disso. Primeiro, o nome Interpol é apenas um "apelido" do vocalista Paul Banks. Paul, que nasceu na Inglaterra, levou uma vida nômade mundo afora junto com os seus pais. Quando morou na Espanha, os seus amigos o chamavam "Pol, Pol, Interpol". Segundo, o universo das músicas do Interpol é bem mais abrangente - liricamente e melodicamente - do que costumazes canções políticas.
O embrião do Interpol nasceu quando Daniel Kessler e um colega chamado Greg resolveram se juntar para tocar algumas músicas, com Daniel na guitarra e Greg na bateria. Logo em seguida, Daniel conheceu o baixista e tecladista Carlos "D" Dengler, e este entrou no grupo também. Para finalizar, Daniel convidou Paul, que ele havia conhecido em um temporada em Paris, para se juntar ao grupo. Uma única visita de Paul ao estúdio onde Daniel, Greg e Carlos tocavam foi suficiente para que ele se interessasse e integrasse a banda. Nascia assim o Interpol, em 1998.
A banda passou algum tempo dando duro, tocando em estúdios de última categoria, ensaiando e desenvolvendo pouco a pouco seu som. Em 2000, Greg deixou o grupo motivado por razões pessoais, dando lugar a Samuel Fogarino. Daniel conhecia Sam de uma loja de discos. No final desse mesmo ano, os primeiros lançamentos da banda: através do selo escocês Chemikal Underground, o Interpol lançou um EP que fazia parte de uma série chamada FukdID, e logo depois participou de uma coletânea chamada "Clooney Tunes", organizada pelo selo Fierce Panda.

No ano seguinte, a banda já tinha atingido um certo grau de reconhecimento, o que lhes permitiu serem escalados como banda de abertura de gente como Trail of Dead, Delgados e Arab Strap. O ano de 2001 continuou bom para a ascenção do grupo, quando participaram das famosas John Peel Sessions e passaram a ter alta rotatividade nas rádios e palcos europeus
Em novembro de 2001, ao lado dos produtores Peter Katis e Gareth Jones, a banda entrou no estúdio Tarquin (um antigo manicômio infantil), em Connecticut, EUA, para começar a gravar aquilo que seria um dos mais antológicos disco de estréia dos últimos tempos.
"Turn on the Bright Lights", o debut do Interpol, saiu em agosto do ano seguinte e conquistou de maneira quase unânime a crítica e o público ao redor do mundo. Apesar das freqüentes comparações com Joy Division e o post-punk britânico em geral, a banda trabalha sua atmosfera sombria e sonoridade densa de maneira original e bem apoiada na competência técnica de seus membros. O Interpol já se destacou o suficiente para ser apreciado e respeitado pela sua música, e não somente como uma das queridinhas da mídia atual, cuja voracidade para criar hypes voláteis parece estar em seu ápice. O presente do Interpol é brilhante e seu futuro, altamente promissor.
Após muitos shows e o reconhecimento, chegou a hora da importante prova do segundo disco. "Antics" é lançado em 2004, novamente bem recebido por crítica e público, mas sem o entusiasmo do debut de dois anos atrás. O que é natural, até porque a banda soube não cair na armadilha de não lançar um "Turn on the Bright Lights vol. 2". Com "Antics", o Interpol garante sua reputação de uma das mais competentes bandas atuais e sugere uma carreira de muitos bons discos ainda por vir.
Fabricio Boppré e Natalia Vale Asari/ set/2003atualizado em out/2004 por Fabrício Boppré
Retirado do Site - http://dyingdays.net

Discografia:

Turn on the Bright Lights - 2002 (Matador)
Antics - 2004 (Matador)

Referência em Arte

BASE-V é um grupo de artistas de São Paulo, Brasil. O grupo começou em 2002 com o lançamento da primeira edição da Revista V. Pouco depois o site do grupo tornou-se uma comunidade de artistas gráficos, publicando trabalhos do mundo inteiro. O grupo trabalha com diversas mídias, de publicações artesanais a instalações gráficas, misturando materiais e suportes; participa de exposições e coloca alguns trabalhos na rua.
Publicação independente é um forte campo de produção para o grupo, incluindo a segunda edição da Revista V, o nascimento da revista digital Maguila, que está indo para o número 10 e todas as publicações que se seguiram desde então. O grupo participou de algumas publicações como StereoPublication, Revista 45//30, Blank Magazine, Revista Simples, ComputerArts e outras, trabalhou com parceiros como Gravadora Trama, Next Five Minutes, Mídia Tática Brasil, Projeto Nave e fez exposições coletivas em espaços como Hype Gallery(Londres), Galeria Artetica (Roma), Galeria Choque Cultural, Museu de Arte Contemporânea de Americana e Museu de Arte Contemporânea de Bogotá (Colômbia).Projetos futuros incluem a publicação de mais edições de nossa nova série, Base-V Box, a produção de um livro em xerox com diversos artistas do mundo e novas edições da Revista V. A Base-V segue tentando criar novos espaços em artes gráficas e publicações, usando técnicas seculares ou mídias digitais, para expandir cada vez mais o acesso a nossa produção e de outros artistas pelo mundo afora.
Hoje, o grupo é formado por Danilo Oliveira, David Magila, Anderson Freitas e Rafael Coutinho.Para mais, escreva: info@base-v.org
Extraido do própio Site - http://www.base-v.org.

Rasga Mortalha

Meu antiacido
De limpar frieiras no estomago
Minha farda de SER anti-social
Minha face em madrepérola
Minhas lendas que se confundem
E se espalham por minha cabeça
São fomentos para minha náusea
Que se enche e fica a bufar
Irritada
Esbugalha olhos
Tortura sonhos
Esfola na pele vertiginosa
Trilha com tez das múltiplas
Peles de olhos
Que refletiam
O peso da ausência
A clausura e seu sentido
Estimulam a burocracia e o medo
Minha espora é pesada
Meus versos são curtos como minha sanidade
Meus intentos
Sou redundante em mim mesmo
Não sou cópia de nada e nada se agrega a mim
Infinita a música virou meu bueiro
Agora o peso mede minha força
Elevo minhas mãos ao firmamento
Quero entregar a noite
Lembranças que curtas como minha irrisória sanidade
Fazem-me sucumbir à violência de querer ser passado
E pesado sou relento de horas que amassaram o rosto com o resto pueril de minha insólita misericórdia
Incerta, turva, a vista não avista
Meu nada que urina por todo o corpo
Salobre
Insano
Caótico é não lembrar
O peso do nada no corpo que divide o tempo de
Ser antiácido e dissolver minha magoa.

O enigma Vivian Maier.

Fonte :  https://revistazum.com.br/colunistas/o-enigma-vivian-maier/ É difícil saber o que leva alguém a optar por atravessar a vid...